José Miguel Wisnik: '2022 é decisivo para o destino do Brasil moderno'

Para José Miguel Wisnik, professor titular de literatura da USP, músico e um dos principais intelectuais em atividade, o tabu hoje a ser quebrado é o da exclusão e a questão central no Brasil é se o país reagirá ao projeto de destruição antimoderna.

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Caetano Veloso dedica a ele o livro Verdade Tropical. Professor titular de literatura da Universidade de São Paulo, músico, escritor e ensaísta, José Miguel Wisnik é um dosmaiores intelectuais brasileiros. Autor de livros como Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, e Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração e discos como Pérolas aos Poucos, Wisnik estuda o modernismo há 50 anos.
Assinou na Folha de S. Paulo o artigo “Semana de 22 ainda diz muito sobre a grandeza e a Barbárie do Brasil de hoje”.

Wisnik mostra como a Semana de Arte Moderna em 1922 foi além de uma manifestação artística elitista e bairrista. Para Wisnik, a questão central que os 100 anos de modernismo e da experiência cultural brasileira inspiram é a do destino do Brasil. “2022 é decisivo para o Brasil moderno. O país reagirá à destruição antimoderna?” Ou seja, para o intelectual e artista, devemos
nos ater ao presente. É tudo para hoje. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Modernismo e a visão do país

"Nos anos 1920 e na Semana de Arte Moderna, modernidade era revolucionar a linguagem, os modos de representar o mundo. Isto envolvia tabus. Era quebrar tabu fazer quadros como os da Anita Malfati, embora nem tão subversivos fossem. Bastava pintar um homem de amarelo para isto ser um escândalo. Fazer poesia com versos não metrificados era um escândalo. Era uma afronta a uma mentalidade voltada para uma representação do mundo, segundo certas regras. Na Semana de Arte Moderna, o ponto era principalmente este. Depois, tornou-se uma coisa mais ampla, naquilo que Mário de Andrade chamou de uma fase construtiva. Era ter uma visão do Brasil. Ter uma visão includente da sociedade e construir um novo projeto de país e as suas instituições. Isso é um sentido alargado de moderno. Hoje, todas essas quebras e rupturas já foram feitas. Esses tabus já foram quebrados. Não há mais vanguarda artística a ir à frente porque não se trata mais disso. Não que não haja coisas novas e simultâneas acontecendo. Mas não há mais novos modernistas fazendo aquilo de novo, naquele primeiro sentido".

O tabu a ser quebrado

"O que hoje é um tabu a ser quebrado diz respeito à desigualdade e à exclusão. Há uma divisão, numa sociedade neoescravista como a nossa, que veio à tona nos últimos tempos. A sociedade fundada no escravismo – e que não abandonou uma mentalidade escravista – está entranhada em muitas formas de se viver no Brasil. Pensar que os negros não estão aí para ser olhados como subalternos, invisibilizados, é uma questão viva. Assim como a questão da nítida separação entre masculino e feminino, fundada na relação patriarcal em que o homem manda e a mulher se subordina ao homem. Esses também são tabus que têm sido quebrados, mas permanecem tabus, reinvindicando o seu antigo poder. Isso está em jogo hoje. Mas não de uma maneira linear, como se a cultura tivesse um centro. Está na arte, no comportamento, nas questões institucionais. Ela se manifesta de muitos lados".

Emicida

"No show de Emicida e no documentário AmarElo – É tudo para Ontem , há uma história, uma linhagem da negritude, da ancestralidade negra marginalizada que ele traz para o centro e para o seu show no Theatro Municipal de São Paulo. Por ser no Theatro Municipal, havia esse caráter emblemático ligado à Semana de Arte Moderna. A obra reinvindica uma ligação com nomes como Mário de Andrade e Oswald de Andrade. O documentário pensa diferenças e afinidades com a tradição modernista. AmarElo é o mais significativo dos acontecimentos culturais recentes por ocasião do centenário da Semana de Arte Moderna. Tem relação explícita com o Modernismo. Não é como os manifestos modernistas, em que você lançava um movimento e definia os princípios que usaria. Emicida vem do rap, mas conversa com o samba. Isso é diferente dos que defendem a pureza do rap. A tradição do rap em São Paulo volta a considerar a música brasileira, o samba. É o que a cultura hiphop trouxe como consciência de um sujeito periférico. Ao retomar a relação com o samba, pode-se dizer que isso é um passo além e, ao mesmo tempo, um passo atrás. Não no sentido de atraso, mas um passo de incluir-se na tradição. Um passo além, dentro de uma tradição, que é a do samba. Isso aí nos tira do heroísmo das vanguardas. Mas não é um passo à frente, fazendo com que fiquemlá os atrasados. Não é, insisto. Emicida tem um interesse forte pela literatura, um traço da cultura brasileira em que artistas da MPB dialogam com a literatura, como Chico Buarque e Caetano Veloso. Não me interessa a discussão se ele está dando um passo além, o que seria um modernismo hoje. O mais importante é que ele tem esse testemunho que vem da experiência das margens da sociedade da cultura. Ele formula isso na esteira da criação de um sujeito periférico que vem para o centro. Isso o faz se unir ao samba e à literatura, que está ligada ao Modernismo. Por isso, Mário e Oswald de Andrade são importantes para ele".

Modernidade, em tempo presente

"2022 é decisivo para o destino do Brasil moderno. Vamos afundar nessa regressão desmanteladora da cultura ou o país é capaz de responder a isso e afirmar outras possibilidades? Porque o que está aí é o antimoderno. O antimoderno é contra as transformações da vida. É contra uma visão integrada da sociedade brasileira não excludente. É contra as instituições culturais que foram penosamente construídas, sempre precárias: universidades, bibliotecas, cinemateca, todas essas atacadas. Foi o espírito do Modernismo que criou essas instituições, que pensou memória cultural, que pensou o país em sua complexidade, em como se afirmar com uma originalidade cultural no mundo. Assim fez a arquitetura moderna, a literatura, a música brasileira. Modernismo hoje é o resultado disso. Isso vai ser dilapidado ou ainda vale? Valeu de alguma coisa ter existido Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector? O país segue com esta destruição antimoderna ou responderá a isso? Só vejo possibilidade se incluirmos a riqueza desses 100 anos de cultura moderna, que estão sob ataque. É também a destruição ambiental, é o desmantelamento das instituições culturais. Vamos afirmar que o Brasil não se resume a isto? Todas as efemérides culturais em 2022 são uma mesma. Tudo é questão do moderno Brasil, remetendo aos 200 anos da Independência. Essas questões se encontram hoje. É o destino da nação, e envolve o Modernismo, o moderno num sentido mais amplo, e a barbárie. É o que precisa ser dito".